Enejunesp, você é admirável

Jornal Jr

Por Maria Gabriela Zanotti

Ilha Solteira é longe. Qualquer lugar em que você esteja será distante de Ilha. No ônibus, enquanto todos dormiam, lembrei que havia uma proposta de cliente para eu terminar. Abri correndo o computador e logo me lembrei da planilha que também tinha que preencher. O dedilhar sobre o teclado fez com que um acordasse. A conversa de dois despertou o da frente. O cheiro de tinta, depois óleo, e a fumaça que saía do banheiro acordaram mais alguns. Todos.

– Isso aqui tá pegando fogo?

Ficamos um bom tempo parados na estrada. Alérgicos se coçavam, enquanto mosquitos nos comiam vivos. Quase cinquenta pessoas em uma parte perdida do mapa gigantesco de São Paulo – a cidadezinha não tinha nome.

Enejunesp
Membros da Jornal Júnior no Enejunesp 2017, em Ilha Solteira (Foto: Marcela Benetti)

Essa era a primeira vez. Tanto pra Ilha Solteira, como para o evento. As malas e colchões infláveis ocuparam a sala 1 ao lado do parquinho. Na lousa, os nomes escritos à mão por quem se alfabetizava. A-B-C-D. Ao fundo, as pequenas cadeiras empilhadas de uma sala emprestada.

– Corre, o ônibus tá saindo!

Que cidade quente, preciso de repelente e ca-dê-a-re-becca, de novo. A porta de madeira que se desmanchava e mostrou o miolo, separou o falar do silêncio. Abriu. Uma mulher no centro da mesa, pomposa e com o microfone na mão. Na esquerda, homens de terno. Na direita, mais dois. A luz saía do projetor, se expandia ao longo do teto, feito uma pirâmide. Em letras vermelhas, já anunciavam: Enejunesp, Ilha Solteira. Sussurro, sussurro. Palmas, palmas. Ufa, vamos comer.

Sete da manhã. O primeiro celular toca. Sete e dois. O segundo. Sete e cinco, dez, quinze. Batem na porta, sorte pros laranjas – as pulseiras amarelas vão primeiro pro café. No banheiro, a água no chão encharca o chinelo e a fila pro chuveiro quente vai devagar, quase parando. Todos de polo. Alguns conversam sobre engajamento, outros sobre sistema de eleição, sobre a festa dali algumas horas. O ônibus vai, às seis da tarde, ele volta.

Tinta. Samba-canção e abadá. Aos poucos, vão chegando entoando músicas de campi espalhados por todo o estado. Elas devem ser professoras de academia, olha essas coreografias. Mão esticada na frente do corpo, coloca atrás, pé junto, agora separado. Os olhares tímidos se encontram.

O dia parece que sente. O céu nublado parece que se despede. Os jovens de polo, também. Trocam cartões, escrevem em bandeiras, deixam legado.

Essa era a última vez. Tanto no Enejunesp, como vice-presidente. Últimos diretores de marketing, projetos, últimos gestores de pessoas. Os trainees e assessores ocupavam diretorias. No ônibus, a imagem da primeira vez com a polo emprestada. A lembrança da primeira vez na sede vinha e voltava. Feito o vai e vem de quem passa por isso aqui. M-E-J.

– Está na hora de dizer adeus!

De novo, a porta de madeira que se desmancha e mostra o miolo, separou o falar do silêncio. Abriu. Em letras azuis, já anunciavam: jornal para todos. Sussurro, sussurro. Palmas, palmas. Ufa, vamos embora.

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