O teatro independente em Bauru e sua missão cultural

Jornal Jr

Enquanto grande parte dos brasileiros não têm acesso às salas de teatro, grupos independentes em Bauru aproximam a arte da população

Teatro Bauruense
Objetos cenográficos presentes no ateliê da nova sede do “O Ato”. Créditos: Matheus Rodrigo

Katiusca participa há anos de um grupo de teatro em Bauru chamado “O Ato”, a jovem havia acabado de sair de um dos encontros semanais do projeto no final da tarde de uma quarta-feira. Com seus 22 anos, já foi atriz e até contra-regra em muitas peças da companhia e hoje define a atuação como um aprendizado de vivências e sentimentos.

Assim como para a garota, a atuação tem sido porta de entrada para grandes experiências artísticas desde o início da história teatral, que começou na Grécia Antiga nos rituais em homenagem ao deus Dionísio. O caráter sagrado atribuído ao teatro nesses rituais se perpetuou ao longo de sua história, chegando ao Brasil.

A trajetória teatral brasileira é extensa. Seu início remonta ao século XIX, quando as peças teatrais eram destinadas apenas à aristocracia. Já no século XX, o teatro passou por repressões durante a Ditadura Militar e apenas ressurgiu com muitas produções a partir da década de 70, sobrevivendo até os dias de hoje.

Sobrevivência constantemente ameaçada pela frequente diminuição do acesso aos teatros pela população. Pelo menos foi o que mostrou os dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em 2010, o qual indicou que quase 60% dos brasileiros nunca foi a um teatro. Já em 2015, uma pesquisa feita pelo IBGE apontou que apenas 23,4% das cidades brasileiras possuem teatro ou sala de espetáculos, o que dificulta ainda mais o acesso à cultura.

Muitos fatores podem influir nesse pouco acesso, a distância dos pontos de cultura, a falta de dinheiro para pagar os ingressos, falta de tempo e até mesmo de incentivo. Seja o motivo que for, há, contudo, em vários lugares do país, grupos de pessoas com a missão de espalhar o amor ao teatro. O grupo “Ato”, mencionado no início da matéria, é um deles.

O grupo de teatro independente fundado pelo casal de atores, Elisabete Benetti e Carlos Batista, começou em Bauru há 28 anos e sua trajetória inclui a realização de 17 espetáculos e várias ações voltadas ao estímulo do teatro na cidade. O Ato possui três espaços para organização, ensaios e oficinas: uma sede oficial, um ponto de cultura e um espaço cedido pela OAB há dez anos, sendo neste último onde ocorrem as apresentações dos espetáculos, aos domingos.

Teatro Bauruense
Membros do grupo “O Ato” em reunião. Créditos: Matheus Rodrigo

Bette conta que eles não recebem patrocínios. O trabalho tem sido subsidiado ocasionalmente por leis de estímulo à arte. Hoje participam ativamente do grupo nove membros, incluindo crianças e idosos. “Nós promovemos vivências, não aulas. O teatro é um exercício de consciência, de expressão, ele minimiza conflitos e acaba com as inquietações, apontou.

Teatro Bauruense
Fantasias usadas pela companhia em espetáculos. Créditos: Matheus Rodrigo

O Ato também oferece oficinas de sensibilização para educadores e em seus encontros semanais comumente trabalham poesias e literatura. “O teatro traz olhares diferentes, ajuda a se perceber no mundo. Ele está mudando a vida das crianças que participam e também dos pais deles e ver isso é maravilhoso”, desabafou Carlos.

Além do Ato, outros grupos de teatro independente também se destacam em Bauru, como o Protótipo Tópico, que tem como sede o Espaço Protótipo, localizado no centro da cidade. O Solar Núcleo de Teatro também é um projeto oferecido gratuitamente, presente na cidade há mais de dez anos. O núcleo oferece estudos teóricos e práticos, que são desenvolvidos em atividades cênicas.

Algumas universidades de Bauru, como a USP e a Unesp, também marcam presença na cidade com grupos de teatros: O TUSP (Teatro da Universidade de São Paulo), atua em Bauru por meio de suas realizações próprias de produção universitária, tendo parceria com teatros locais. Já a Unesp iniciou neste ano um grupo de teatro com o intuito de realizar espetáculos para alunos do Ensino Fundamental I da rede pública da cidade.

Para Elisabette, contudo, não há incentivo suficiente para o desenvolvimento da arte em Bauru e, por isso,afirma que o município precisa uma política cultural.“O que tem aqui são pessoas, assim como nós, que acreditam muito e que contribuem com a cidade, embora os estímulos sejam incapazes de fazer uma verdadeira  transformação cultural”, ressaltou.

Ainda segundo ela, o teatro é a única ferramenta que pode mudar o mundo, por justamente trazer o indivíduo para a realidade, e lamenta que muitas pessoas não possam ter acesso à essa importante arma de conhecimento.

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Elisabete define o Grupo Ato como “sinônimo de belo.” Créditos: Matheus Rodrigo

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