A saúde mental na universidade está em boas mãos?

Jornal Jr

Num minuto Marina Magalhães está bem e engajada nos projetos de sua graduação, no outro se sente extremamente mal. Crises de ansiedade. Falta de ar. Ânsia. Às vezes até desmaios. A dificuldade para respirar vem acompanhada de uma terrível sensação de solidão. Embora já possuísse traços depressivos antes de ingressar na faculdade, a menina não imaginava que pioraria no decorrer do curso.   

Estudante de Ciência Política e Sociologia na Universidade de Integração Latino-Americana (UNILA) desde 2015, ela viu suas crises serem agravadas nos períodos de estresse e mudanças, como nos finais de semestre, na obrigação para cumprir prazos curtos, na pressão para entrega de bons resultados e na competitividade em projetos, bolsas e intercâmbios.

Sua doença, a depressão, é silenciosa e tem se tornado cada vez mais comum no ambiente acadêmico junto a outros transtornos, como a ansiedade. De acordo com estudos psiquiátricos feitos pela Universidade Federal de Minas Gerais, a preocupação excessiva com o desempenho acadêmico e o acúmulo de estresse psíquico que isso gera tendem a desenvolver problemas psicológicos mais graves e agravar os casos já recorrentes.

Como no caso de Marina, que, na época, pensou até em desistir de seus projetos e até mesmo da graduação. “O ter que fazer não importando o que custe, mata pouco a pouco”, lamenta. Ela conta que o espaço universitário não é libertador o suficiente: “A academia é a representação de todas as opressões da sociedade, machismo, racismo, LGBTfobia. Um lugar que, na teoria é revolucionário e, na prática, só garante a manutenção do sistema. É desesperançoso”.

Saúde Mental
Créditos: Daniele Olimpio

 

Para a psicopedagoga, Veronica Bulgarelli, o momento de ingresso na universidade coincide com a fase de transição da adolescência para a vida adulta, onde já ocorre pressão para lidar com novas responsabilidades e cobranças. “Essa ansiedade pode desmotivar os estudos, ainda mais aliada a uma educação que só cobra resultados dos estudantes e não os apoia”, apontou.

Apoio mesmo Marina recebe, em sua maioria, de seus amigos e diz não ser suficiente. Teve que buscar ajuda profissional particular, já que suas crises a obrigavam a deixar todos os trabalhos da faculdade de lado e a assistência psicológica e pedagógica de sua universidade é mínima e não dá conta da demanda. “Os profissionais são poucos e o debate sobre saúde mental na academia é escasso”, salienta.

Debate que Veronica também defende como essencial para mostrar aos alunos que eles não estão sozinhos e reforça a atenção na subjetividade de cada estudante: “Cada aluno tem uma rotina e um modo de aprendizado diferente, é necessário o apoio do professor e da Instituição para que ele se sinta acolhido”. A profissional ainda aponta que o meio acadêmico deve colocar o estudante alinhado ao ensino, e não contra ele.

De acordo com última pesquisa da Organização Mundial da Saúde (OMS), de 2015, 20% dos adolescentes brasileiros sofrem de depressão. No pior dos casos, a depressão pode levar ao suicídio, a segunda principal causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos, o que são sinais de alerta para que todos no país repensem suas abordagens à saúde mental, tratando sobre o assunto com a devida seriedade e urgência.

Segundo a psicóloga Ana Carolina de Martini, “o paciente com depressão tende a vivenciar mudanças na sua rotina, alguns em estado mais grave já não veem sentido na vida, em levantar da cama e se alimentarem ou se higienizarem, e passam o dia todo isolados”. Também há sintomas como redução da energia (física e mental), diminuição da capacidade de se concentrar, problemas de sono, diminuição do apetite, baixa auto-estima, sentimentos e pensamentos frequentes de culpabilidade.

Saúde mental: como vai a sua?

Um formulário com algumas questões que envolvem a saúde mental no meio universitário foi divulgado em grupos do Facebook de diversas universidades e 135 pessoas responderam, entre elas alunos, ex-alunos, professores e funcionários. Os problemas psicológicos mais comuns relatados foram ansiedade, depressão, TAG, síndrome de pânico e distúrbios alimentares. Além disso, a grande maioria afirmou já ter manifestado tais problemas antes, mas não de maneira tão acentuada e grave, já que depois do ingresso à universidade eles pioraram.

 

Saúde Mental
Créditos: Giovana Gomes

 

Ainda de acordo com a psicóloga Ana Carolina, “ as consequências claras para o estudante é principalmente a perda de prazer nos estudos, nos grupos de amizades, sentimentos de angústias quanto ao seu futuro acadêmico e profissional, além de ser uma das causas de alunos trancarem o curso ou simplesmente desistirem”. Problemas no convívio social acadêmico também acabam sendo negativos, bem como, por outro lado, alguns acabarem se envolvendo abusivamente de álcool e outras drogas, como fuga dos conflitos e sintomas vividos.

Ela também destaca que o estudante, na maioria das vezes, entra para a universidade idealizando de uma maneira e acaba lidando com uma realidade diferente. “E aí surgem os maiores questionamentos que mais escuto na clínica: “o que vou fazer quando acabar a faculdade?”, “será que vou conseguir emprego?”, “não quero depender mais dos meus pais”, e nesse momento acabam esquecendo o que estão fazendo no aqui e agora e começam a viver pensando no que irão fazer amanhã, semana que vem e até no último ano da graduação”.

Como transformar o espaço universitário

Saúde Mental
Créditos: Daniele Olimpio

 

A psicopedagoga Andrea Araújo recomenda que se invista na capacitação pedagógica dos professores, a fim de os preparem para lidar com esses problemas. “É importante que se estabeleça um vínculo afetivo entre professores e alunos, para que o docente saiba o que está acontecendo e esteja sempre atento às mudanças de comportamento dos alunos”, ressalta.

Capacitação não só pedagógica, mas também psicológica, visto que, assim como os estudantes, os docentes também podem desenvolver transtornos psicológicos, devido ao estresse e a sobrecarga de trabalho. Como comenta Marina, a estudante do início da reportagem: “Os próprios professores, muitas vezes, também precisam de atenção psicológica, mas não chegam a recebê-la”.

A universitária enfatiza que esses fatores problemáticos no meio acadêmico representam a fragilidade das Instituições no quesito de uma saúde mental que garanta a permanência estudantil. E ainda sustenta ser crucial investir no número de profissionais de atenção psicológica para estudantes e professores, bem como realizar debates sobre o tema em todos os espaços do ensino superior.

Saúde Mental
Créditos: Giovana Gomes

 

Além do mais, para Gabriela Frias, ex-aluna de Ciências Biológicas da UNESP, também é importante investir em debates que amenizem a competição exacerbada existente na academia. Formada há sete meses, suas crises de borderline começaram a se manifestar ainda durante a graduação. A síndrome piorava com a ansiedade intensa que a faculdade provocava. “Ficava violenta, perdida, não me lembrava de muitas coisas que fazia e me machucava com frequência”, confessa.

A ex-estudante não viu outra opção senão procurar ajuda profissional particular, e junto à terapia chegou a tomar ansiolíticos e reguladores de humor. Por causa das crises também cogitou desistir da faculdade e quase estourou de faltas em algumas disciplinas. “Pensei em desistir muitas vezes, mas meus pais nunca deixaram, sabiam que era meu sonho. O apoio da minha família foi essencial em todos os anos de graduação”.

Quando a busca pela terapia ainda possui barreiras

O ideal é sempre buscar ajuda especializada, mas fatores como falta de condições de  pagar um tratamento ou até mesmo a dificuldade de marcar consulta com psicólogos oferecidos pela universidade podem deixar esse processo muito mais complexo.

Nesses casos o aluno pode considerar um ajuste em sua rotina, determinando horários para estudar, dormir, comer, praticar atividades físicas, não postergar a entrega de trabalhos e nem de atividades que exigirão um esforço fora do comum para que sejam entregues no prazo, gerando stress, insônia, fadiga, irritabilidade, etc.

“A organização tem papel fundamental na vida acadêmica, sem ela todas as atividades ficam acumuladas e com isso ocorre um “efeito cascata” que prejudica a rotina e, possivelmente, a saúde mental do aluno”, diz o psicólogo Anderson Silva. Ele explica que estudar é importante, mas lembrar que o estudante não é apenas o indivíduo na universidade, é alguém fora dela, com suas emoções, família, relacionamentos e hobbies, é ainda mais.

Para aqueles que não querem ou ainda não se sentem preparados a procurarem pelo apoio psicológico, há a opção da busca da melhora de qualidade de vida através dos esportes ou atividades que lhe despertam prazer. A psicóloga Ana Carolina conta que alguns conseguem lidar “sozinhos” realizando esportes, aulas de yoga e meditação e corrida, por exemplo, mas que diante a casos mais graves, somente a terapia pode ajudar a significar e compreender seus conflitos inconscientes e conscientes, que estão atrapalhando no seu dia a dia.

Setembro Amarelo e a conscientização

Um acontecimento preocupante dos últimos tempos que também deve ser visto como pedido de socorro foi o registro de algumas tentativas de suicídio em alunos do curso de medicina da Universidade de São Paulo, em maior número no quarto ano de graduação.

Portanto, discussões e reflexões sobre essa realidade não podem ser feitas somente no mês de conscientização da prevenção do suicídio, conhecido como Setembro Amarelo – criado em 2014, com eventos, orientações e divulgação de informações, sua existência já indica um avanço – mas no maior número de ambientes e momentos possíveis, como o próprio lema da campanha reforça: “Falar é a melhor solução”.

Para quem estuda em Bauru

A psicóloga que é citada nesta matéria, Ana Carolina de Martini, realiza atendimento no município bauruense, e para finalizar, deu algumas dicas de possibilidades de busca de tratamento para quem mora por aqui: “Em Bauru, por exemplo, são 4 universidades que disponibilizam o atendimento psicológico (USC, UNESP, ANHANGUERA, UNIP) e todas oferecem o “Plantão Psicológico. Na USC, até onde eu saiba, o plantão ocorre todos os dias da semana e em todos os períodos (manhã, tarde e noite), e é uma boa saída para aqueles que estão em estado crítico e de maior necessidade para lidar com estes transtornos rapidamente. Mas para o acompanhamento clínico e individual, realmente a espera é muito longa nestes serviços”.

Porém ela diz que também existem as Unidades de Saúde Mental que é o Ambulatório de Saúde Mental e o CAPS 1, onde é possível encontrar médicos psiquiátricos, psicólogos, e outros profissionais da saúde que também auxiliam no tratamento – é direito de todo cidadão que passa a residir na cidade de Bauru. Outra opção é procurar por psicólogos que atendem por convênios médicos ou até mesmo aqueles que acabam fazendo valores bem acessíveis.

 

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