Não me reconheço pelo nome que me deram quando eu nasci

Jornal Jr

Entrevistamos a Victória para tentar entender melhor alguns desafios enfrentados pela comunidade transexual no Brasil

Victória. Essas letras todas juntas não representam apenas um nome. Pronunciado firmemente por quem luta todos os dias para tê-lo, faz referência a uma parcela da sociedade que não se identifica com o sexo de nascimento. Pessoas cujo sofrimento escorre do preconceito e da não-aceitação da sociedade e machuca, mas cuja voz não se cala. Vozes como a da cabeleireira e ativista transexual de 35 anos, Victória Rodrigues.

 

Jornal Jr: Quando você se assumiu como mulher e qual foi o impacto disso na sua vida e na vida das pessoas ao seu redor?

Victória Rodrigues: A minha vida inteira eu me senti como mulher. Tinha medo de fazer a transição e de tudo que viria como uma retaliação dessa minha exteriorização. A gente se assume a partir do dia que se reconhece, mas faz uns cinco, seis anos que eu sou Victória 24 horas por dia. Primeiro busquei ajuda: fui atrás da minha psicóloga de infância, fui atrás do HC e do ambulatório de atendimento especializado pra transexuais. Eu sabia o que eu era, mas queria ter uma certeza de ouvir um médico, de ouvir uma segunda opinião, se eu tava certa daquilo mesmo. No meu trabalho eles não aceitaram. Tive que mudar toda minha vida do dia pra noite. Vi pessoas que se diziam meus amigos indo embora; pais, irmãos, família não dando apoio. É como se a gente nascesse de novo, porque aprendemos um monte de coisa com a nossa transição.

 

JJR: Caso tenha existido algum impacto negativo, como você conseguiu superá-lo?

 

Victória Rodrigues: Fui rejeitada em muitas entrevistas de emprego e tive sérios problemas financeiros. (Quando você exterioriza) você tem problemas pra se relacionar, até pra amar alguém. A transição é muito difícil, principalmente nos primeiros seis meses. A única coisa que te conforta é quando deita no travesseiro de noite e tem certeza de quem você é e que está vivendo realmente quem você é.

 

JJR: Observamos como a discriminação é latente em vários aspectos das suas vidas cotidianas. Na vida da Victória, qual é o maior desafio de ser uma cidadã transgênero?

 

Victória Rodrigues: É ter que provar todos os dias que eu sou tão boa quanto um hétero ou uma pessoa cis; numa entrevista, se meu currículo for igual de um hétero, ele vai ser contratado; o ser transexual desqualifica, a sociedade vê assim. É muito difícil ter um emprego, conseguir trabalhar. Sobram sempre os subempregos. O maior desafio é ter uma vida digna, conseguir se sustentar e ser respeitada.

Fonte: oclitorisdarazao.com

JJR: Lemos o seu texto de 2015 no Jornal da Cidade a respeito da (in)visibilidade das pessoas trans. Desde lá, você percebeu algum avanço nesse sentido? Os transexuais e os travestis estão menos invisíveis?

 

Victória Rodrigues: De 2015 pra cá, parece que houve uma abertura maior pro entendimento da questão transgênero e as pessoas começaram a se questionar e conhecer sobre sexualidade, foram buscar mais conhecimentos e teve um boom de revelações de pessoas transgêneros. Tivemos um avanço muito grande – grande assim… pra gente que é trans, é muito grande. Mas ainda é pouco, somos um grãozinho de areia ainda que precisa evoluir muito pra ter uma aceitação total, porque ainda há aquele preconceito velado.

 

JJR: No texto, você também traz um dado alarmante: 90% desta população se prostituía por falta de oportunidade. O que pode e o que está sendo feito para a inserção destas pessoas no mercado de trabalho?

 

Victória Rodrigues: A gente precisa começar a pensar no que pode ser feito para que as e os trans não abandonem a escola no ensino médio, porque não chegam na faculdade e acabam não tendo uma qualificação por conta disso. Então, o preconceito deve ser combatido logo no início, no ingresso escolar das crianças. Não acho que tem que explicar a transexualidade pra uma criança, tem que ensinar a respeitar as pessoas. Não tem que ensinar a respeitar uma pessoa trans, eu fui ensinada a respeitar pessoa. Eu acho que a gente precisa ensinar o respeito ao próximo como pessoa, sem qualificar.

 

JJR: Há 7 anos, órgãos públicos no estado de São Paulo são obrigados a tratar as pessoas pelo seu nome social. Apesar disso, caminhamos a curtos passos nos trâmites oficiais. O processo de alteração do sexo e do nome social do RG no Brasil é extremamente burocrático. Você já realizou este processo?

 

Victória Rodrigues: Já realizei o processo de alteração do nome no documento e o meu não foi tão demorado, porque teve recurso, o MP recorreu e eu ganhei segunda instância. Mas por falta de conhecimento dos juízes e da promotoria, o meu processo se estendeu mais do que deveria. Em alguns países você só precisa ir no cartório. (O processo) é uma coisa que constrange demais, porque eles pedem laudos psicológicos, psiquiátricos… Acho que é uma invasão da sua particularidade. Cada um sabe quem é, eu não vou dizer que sou uma pessoa e ser outra. É um processo chato, porque é o estado quem vai dizer quem você é, se você é transexual ou não, se é homem ou mulher… você está na mão do juiz e se for um juiz que não tem um bom entendimento da questão ainda, você pode ter complicações e até seu pedido negado.

 

JJR: Pode contar um caso em que se sentiu extremamente constrangida em relação à isso?

 

Victória Rodrigues: Quando eu chegava em algum lugar e as pessoas me reconheciam, me tratavam por mulher e aí eu tinha que sacar o RG da bolsa e apresentar e estava lá aquele nome de registro. Ou em algum órgão público, em que você é sempre tratado pelo nome de registro. Acho que os maiores constrangimentos estão nesta hora de apresentar o documento.

 

JJR: Como você enxerga a questão da transgenitalização no Brasil?

 

Victória Rodrigues: É extremamente burocrática, demorada, agressiva, sofrida. Eu estava em processo pra fazer minha operação no HC e a fila está em 5 anos de espera, sem andar, parada. Todo meu tratamento que foi feito no HC desde a identificação de que eu realmente era transexual até eu estar apta a entrar na fila pra fazer a cirurgia, eu não vi uma trans sendo operada. Não há registro de uma lista. Por ser totalmente burocrático, algumas trans acabam recorrendo a médicos que não são especialistas em fazer a cirurgia de readequação de sexo e acabam mutiladas; algumas tem a sorte de conseguir dinheiro pra operar no exterior com médicos renomados. A transgenitalização no brasil é dificílima. Imagina o país mais burocrático que existe em relação a tudo. Agora imagina pra gente que é transexual… Não existe um interesse na nossa causa. Parece que a saúde pensa assim: “tem gente morrendo de câncer e não tem remédio e vocês querendo fazer uma cirurgia que não significa nada”.

 

JJR: Victória, o que representa ser mulher pra você?

Para mim, ser mulher é ter de se impor o tempo inteiro, ter de lutar por direitos básicos, por salários iguais, ter de provar o tempo todo que é competente no que faz. É ter de exigir respeito a todas as horas do dia e da noite, é ter de viver se explicando: por que essa roupa? Por que esse comportamento? Por que você acha que pode ser dona da sua vida, do seu corpo, como você ousa ser sujeito de sua vida? Pois ouso, ousamos e é assim que vai ser. Seguirei lutando para que a percepção dos meus sobrinhos sejam diferentes dessas minhas num futuro não muito distante.

 

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