O relacionamento que tortura

Jornal Jr

Precisamos falar sobre a armadilha das relações abusivas

Por Daniele Olimpio

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Os relacionamentos abusivos, infelizmente, fazem parte da nossa realidade. Não importa qual o tipo de relação ou quem a compõe, muito menos o engajamento político dos envolvidos ou se possuem carteira de militância em algum movimento social: no fim, a violência pode encontrar espaço e se instalar em qualquer lugar.

Muitas pessoas acreditam que um relacionamento só é abusivo quando ocorre agressão física. Contudo, alguns ataques psicológicos podem gerar consequências tão graves quanto lesões corporais. Em geral, o que alimenta esse tipo de relação é o desejo de posse e controle sobre o parceiro, um comportamento que se inicia de maneira quase imperceptível e piora aos poucos, até que ultrapassa o limite.

Situações de extrema violência entre parceiros e ex-parceiros não são difíceis de serem encontradas nos jornais. Em sua maioria, os casos ocorrem em relações heterossexuais, onde o agressor, na maior parte das vezes, é o homem. Eles abusam de suas parceiras porque as veem como coisas que podem ser controladas e manipuladas e acreditam que devem estar no controle do relacionamento. Em geral, esse tipo de abuso é aprendido socialmente, seja em casa vendo o relacionamento dos pais, com os amigos ou com a própria cultura machista que objetifica a mulher.

A pesquisa “Violência Contra a Mulher, o Jovem está Ligado?”, feita pelo Instituto Avon e Data Popular em 2014, revelou que 52 milhões de brasileiros admitem ter algum conhecido, parente ou amigo que já foi violento com a parceira, mas apenas 9,4 milhões admitem terem tido essa atitude. O curioso é que quando são listados alguns abusos sem que sejam nomeados dessa forma, a incidência aumenta. Isso mostra que determinados comportamentos ainda não são vistos como violentos pela sociedade.

O gráfico abaixo mostra os abusos mais frequentes em relacionamentos:

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Imagem tirada do pdf da pesquisa de 2014 do Data Popular e Instituto Avon

Rebecca Garcez, 25 anos, militante feminista e interiorana de São Paulo, já passou por vários relacionamentos abusivos e sofreu violência de diversas formas, sendo mais recorrentes as sexuais e psicológicas. “Sempre vivi minha sexualidade livremente, aí junta com o fato de eu ser espontânea por natureza e muita gente confunde isso”, conta.

“Ouvi do meu primeiro namorado que eu nunca ia fazer um cara gozar na vida, e isso poderia ter me traumatizado para sempre. O cara que faz essas coisas é muito mal resolvido com sexo, muito”, acrescenta. Ela ainda diz que o modo como a sociedade vende sexo atualmente gera muita frustração, o que acaba causando tanta violação “da mente e do corpo alheio”, e destaca o feminismo como ferramenta de desconstrução de tal cultura.

Ao falar de uma das relações abusivas que enfrentou quando estava prestes a completar a maioridade, Rebecca conta que era brejeira, caipira e que tinha a ingenuidade como cartão de visita. Já o rapaz, seu futuro abusador, era carioca, badalado, da noite, rockstar, um de seus ídolos da música na época. “[Foi um] choque cultural”, afirma. Segundo ela, no início era “todo aquele amor, aquela intensa troca de poesias e verdades sentidas”.

No entanto, com o tempo, ele passou a interpretar a ingenuidade de Rebecca como uma fraqueza em uma relação de dominação e passou a exigir que ela mudasse sua aparência. “Virei morena de argola no nariz. Também era ‘gordinha demais’ para o gosto dele”, relata.

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Imagem tirada do pdf da pesquisa de 2014 do Data Popular e Instituto Avon

Além das agressões psicológicas, a garota ainda era pressionada a fazer sexo anal, o que era uma questão delicada, já que ela havia sido abusada por seu primeiro namorado dessa forma. Rebecca fala ter escrito uma carta na época apontando as hipocrisias do rapaz, que ficou chocado, mas legitimou sua análise. Ela terminou com ele, mas depois acabou voltando para a relação até que ele quis terminar.

Como identificar um relacionamento abusivo?

“De maneira geral, eu acho bem complicado se perceber em uma relação abusiva. Quando a gente está dentro da situação, sendo tomada por aquilo, se angustiando e dando conta de tanta coisa, fica complicado olhar o caos de fora. Isso em relação a qualquer problema, na verdade. Aí que entra o fato de que somos seres sociais, buscamos o olhar dos outros, amigos, família, terapeuta. E a segunda parte complicada é se posicionar diante da informação de que o relacionamento que você vive é abusivo. Eu às vezes fico naquela de ‘ah, mas o fulano tem tanto aspecto bom também…’. Só que a gente tem que lembrar que todo mundo é bom, se for parar para pensar. E que o amor próprio tem que reinar sempre. O feminismo e suas pautas me auxiliaram muito com isso. Foi lendo relatos de outras mulheres que eu compreendi que aquilo que vivi no meu primeiro relacionamento tinha sido um abuso”.

 – Rebecca Garcez

Um grande problema na identificação de um relacionamento abusivo são as muitas variações de abuso existentes. As agressões podem acontecer de tantas formas que a vítima não consegue ver que vive nessa situação ou se recusa a admitir que ama um abusador. Geralmente, esses vários abusos são muito sutis ou até naturalizadas por filmes, novelas e livros, que acabam mascarando atitudes nocivas para vender a imagem do amor romântico, como no exemplo abaixo.

Suponhamos que você tivesse terminado seu relacionamento e seu ex, que não aceitou o término, te sequestrasse com a ajuda de seus próprios amigos para te obrigar a reatar o namoro. Você acharia romântico ou doentio? Pois a Rede Globo achou romântico e vendeu essa história ao público adolescente de Malhação.

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Imagem: Festival Marginal

Para quem nunca viveu esse tipo de relação parece muito fácil perceber os sinais, mas para quem está vivendo é muito difícil ver a gravidade do problema. Até porque, em geral, a vítima perde o controle de si mesma devido à manipulação a que é submetida, além, é claro, dos seus sentimentos pelo agressor.

A base de toda violência doméstica, normalmente, é a culpa. É através dela que o abusador transfere toda a responsabilidade de suas ações e sentimentos para a parceira, assim a vítima vai apenas pensar que o agressor está apontando erros no relacionamento para resolvê-los. Por exemplo: culpar a parceira pelas suas próprias crises de agressividade e violência, dizendo que ela o deixou assim; chamar a parceira de louca só para desacreditá-la; ou até mesmo fazer a parceira sentir como se estivesse magoando seu agressor apenas por não querer fazer algo que ele deseja.

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Imagem: Colmeia Urbana

Assim que o agressor faz a parceira tomar para si toda a culpa do que acontece no relacionamento e na vida dele, cria-se o campo perfeito para a dominação da vítima e a vulnerabilidade para posteriores abusos, dentre eles:

Abusos emocionais: Constantes humilhações, constrangimentos em público, desmerecimento das suas opiniões e conquistas, xingamentos, gritos, traições, agressividade, ciúme excessivo, tentar te afastar de seus amigos e familiares, fiscalizar suas roupas e o uso de maquiagem, controlar com quem você anda e fala, ameaçar machucar você/sua família/bicho de estimação, te chamar constantemente de imatura ou burra só porque não fez algo que ele desejava, tentar te convencer a mudar algo em seu próprio corpo, ameaçar se matar caso você termine o relacionamento, violar a sua privacidade, pedir provas de amor, tentar te convencer a fazer algo com a justificativa de que você faria se realmente o amasse, ameaçar tirar os seus filhos.

Abusos sexuais: Tentar te beijar ou tocar sem que você queira, te forçar a ter qualquer tipo de relação sexual, fazer chantagem emocional para que o ato sexual seja “concedido”, aproveitar que você está bêbada/inconsciente/alterada/dormindo para insistir sexualmente, recusar-se a usar camisinha ou restringir o seu acesso a métodos contraceptivos, ameaçar fazer sexo com outras caso você não o queira.

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Imagem tirada do pdf da pesquisa de 2014 do Data Popular e Instituto Avon

Abusos físicos: Chutes, tapas, ameaças, jogar objetos em você ou destruí-los durante brigas, demonstrar comportamento violento, te segurar com força, empurrar.

Abusos financeiros: Dar mesadas e controlar o que você compra, te impedir de ver o extrato de uma conta conjunta, usar o seu dinheiro ou cartão de crédito sem permissão, fazer você se sentir culpada por não pagar coisas para ele, te pedir dinheiro ou bens como prova de amor, gastar dinheiro com ele mesmo e te impedir de fazer o mesmo, usar o dinheiro como forma de te controlar caso você seja dependente financeira.

Abusos digitais: Dizer quem você pode ou não adicionar nas redes sociais, mandar mensagens ameaçadoras, te humilhar em status de rede social, te mandar fotos explícitas indesejadas e insistir para que você mande de volta, roubar ou insistir para ter as senhas das suas redes sociais, mexer no seu celular constantemente para ler mensagens/checar imagens/ver ligações.

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Imagem tirada do pdf da pesquisa de 2014 do Data Popular e Instituto Avon
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Imagem tirada do pdf da pesquisa de 2014 do Data Popular e Instituto Avon

O grande problema é que muitas pessoas ainda não consideram os abusos digitais como violências, mas sim como coisa “normal de casal”.

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Imagem tirada do pdf da pesquisa de 2014 do Data Popular e Instituto Avon

Saindo do relacionamento abusivo

Para uma mulher sair de um relacionamento abusivo é muito difícil e leva muito tempo – se ela tiver filhos pode demorar ainda mais. Se livrar desse tipo de relação passa longe de precisar apenas de força de vontade, já que há uma série de dificuldades emocionais, afetivas, jurídicas, sociais e econômicas que barram o caminho das vítimas.

O relacionamento abusivo, geralmente, segue um ciclo que acaba contribuindo muito para o prolongamento do sofrimento da vítima e a ajuda a sempre acreditar na mudança do agressor:

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Imagem: Coletivo Não me Kahlo

O abusador mina a autoestima da companheira, a violenta fisicamente e depois pede perdão prometendo que não o fará novamente. Algumas vezes ele a culpa dizendo que se ela fosse menos isso ou aquilo, a violência não teria acontecido. Então, acreditando que está errada e que seu parceiro mudou, a vítima volta para o relacionamento e vive a fase de lua-de-mel, até as violências recomeçarem.

Outro empecilho muito grande na hora de se afastar do agressor surge quando a mulher é muito dependente dele, tanto economicamente quanto afetivamente. O medo de ficar desamparada, de viver sozinha, ainda mais com filhos, toma conta da vítima. Sem o parceiro para manter a casa economicamente ou “amá-la”, a mulher teme seguir em frente e opta por continuar na relação.

Além desses fatores, há ainda a preocupação da vítima com o que vão falar dela, o medo de que a culpem pelo abuso preenche sua mente. Isso piora muito quando o agressor afasta a parceira de seus amigos e familiares com intrigas e proibições, como a maioria costuma fazer. Assim, isolada e triste, a vítima continua no relacionamento.

E claro, as mulheres que sofrem violência física e sexual sentem medo de denunciar pelo processo ser juridicamente longo, além de temerem a prisão do parceiro, que pode sair ainda mais violento e procurá-la. Outro aspecto que influencia muito na decisão de não procurar ajuda policial num caso abusivo é o medo de ser desacreditada e julgada pelos próprios policiais.

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Imagem tirada do pdf da pesquisa de 2014 do Data Popular e Instituto Avon

No caso de Rebecca Garcez, houve muito apoio de sua família, principalmente de sua mãe, e de seus amigos. “Eu sou muito privilegiada por ter crescido na família que cresci, sempre vivi uma transparência e sintonia com a minha mãe. Ela sempre foi a que me chacoalhava”, declara. Para ela, a ocorrência dos relacionamentos abusivos é respaldada pela sociedade patriarcal. Ela acrescenta que “ninguém tem que aguentar ninguém além de si mesmo”.

Existem vários tipos de abuso e justamente por isso cada relação tem sua particularidade e seu nível de dependência, sendo alguns agressores mais fáceis de se livrar do que outros. De todo modo, é indispensável que a vítima procure todo o apoio possível de seus amigos e familiares mais confiáveis e tente cortar todos os laços com o abusador.

Muitas vítimas com alto nível de dependência do parceiro não conseguem permanecer separadas por muito tempo e acabam voltando para o relacionamento, o que não significa fraqueza de maneira nenhuma. Se livrar de uma relação dessa não acontece do dia para a noite: é trabalhoso e requer bastante apoio e, muitas vezes, ajuda profissional.

Com o fim do relacionamento pode ser que os problemas não acabem e o agressor pode voltar a procurar a vítima e insistir para voltarem – algo que acontece muito. É muito comum que ela continue com medo de quem a abusou e de futuros relacionamentos. O importante é saber que nada, absolutamente nada, é pior do que viver aprisionada a uma pessoa que só destrói a sua vida.

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